A iminente audiência do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) colocará o Brasil no centro de um embate comercial, onde 11 setores do agronegócio nacional se preparam para defender seus interesses contra a possível imposição de novas tarifas pelo governo Donald Trump. A delegação brasileira, composta por mais de 70 especialistas e representantes de cadeias produtivas, buscará em Washington convencer as autoridades americanas de que a taxação de matérias-primas brasileiras resultará diretamente em custos mais altos para o consumidor dos EUA.
O foco da argumentação brasileira reside na competitividade e qualidade de seus produtos, alertando para o impacto inflacionário que tais barreiras comerciais trariam à economia americana. No entanto, o setor agropecuário do Brasil enfrentará resistência, especialmente da indústria de biocombustíveis dos EUA. A Renewable Fuels Association (RFA), que representa os produtores de etanol americanos, defende tarifas recíprocas sob a alegação de práticas comerciais desleais por parte do Brasil, conforme reportagem da CNN Brasil. A entidade americana reforça sua posição com uma pesquisa recente, indicando que 74% dos eleitores registrados nos EUA apoiam o programa federal de mistura de biocombustíveis (RFS), e 87% consideram a independência energética crucial, vendo o etanol como um caminho para esse objetivo.
Setores como o de café já sentem os efeitos de barreiras existentes. Aguinaldo Lima, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS), destacou que os Estados Unidos, que já foram o maior comprador de café solúvel brasileiro, perderam essa posição para a Alemanha após a manutenção de tarifas de 10%. Ele adverte que novas taxas sobre o café brasileiro inevitavelmente elevarão os preços da bebida nos lares americanos. No segmento de carnes, analistas apontam que, mesmo com tarifas, frigoríficos de origem brasileira com unidades industriais em países vizinhos continuarão abastecendo o mercado dos EUA, especialmente em um momento em que o rebanho americano registra sua menor baixa em sete décadas, evidenciando a interligação das cadeias produtivas.
A indefinição comercial, somada à instabilidade geopolítica global, adiciona complexidade ao cenário de custos e escoamento das safras agrícolas brasileiras, como ressaltado pelo Itaú BBA em relatórios recentes. A audiência, que começará às 10h no horário de Washington, prevê 14 painéis temáticos, com cada representante tendo até cinco minutos para apresentar um resumo executivo de sua defesa. A expectativa é de que a argumentação seja concisa e focada nas consequências econômicas diretas caso as tarifas propostas sejam implementadas.
Entre os representantes do agronegócio brasileiro que participarão estão nomes importantes de associações de arroz, gelatina, café, mel, etanol de milho e cana-de-açúcar, além de entidades como a Sociedade Rural Brasileira e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. A missão é clara: proteger a competitividade do agro brasileiro e garantir que os consumidores americanos não paguem o preço de uma guerra tarifária.



