Em um gesto de profundo simbolismo, o Papa Leão XIV visitará a ilha de Lampedusa, no sul da Itália, neste sábado (4) – data que marca o 250º aniversário da independência dos Estados Unidos. A escolha da data e do local, um ponto crucial de chegada para migrantes no Mediterrâneo, é interpretada como uma mensagem contundente do Pontífice à nação norte-americana sobre a questão migratória, tema de fricção constante entre a Santa Sé e o governo Trump.
A abordagem dispensada aos imigrantes tem sido um dos principais pontos de atrito entre o primeiro Papa americano e a administração Trump. Recentemente, o vice-presidente JD Vance, católico, classificou a postura do Vaticano sobre o assunto como "preocupante". A visita de Leão XIV a Lampedusa, onde muitos arriscam a vida na travessia, ressoa com sua própria história como bispo no Peru, quando prestou auxílio humanitário a venezuelanos, e como Papa, ao condenar a investida do governo dos EUA contra imigrantes, rotulando o tratamento como "desumano". Segundo a CNN Brasil, líderes da Igreja Católica nos EUA veem a visita como um recado direto aos Estados Unidos.

Durante sua estadia, o Sumo Pontífice depositará uma coroa de flores nos túmulos de migrantes que pereceram no mar, encontrará um grupo de sobreviventes e celebrará uma missa ao ar livre. Este roteiro emula o caminho de seu predecessor, Papa Francisco, que visitou a ilha logo após sua eleição para sensibilizar sobre o drama daqueles que morrem em embarcações precárias. O Cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago e estreito colaborador do Papa, destacou que a visita tem um cunho "pessoal", lembrando que Leão XIV, assim como muitos americanos, tem origem familiar imigrante. Cupich sublinhou que a visita realça as valiosas contribuições dos recém-chegados, muitas vezes "negligenciadas" quando vistos "meramente por infringirem uma normativa" ao chegar sem documentos. Ele reiterou a visão do Papa de que "a divindade não indaga sobre passaportes; Deus olha para a dignidade inerente a cada indivíduo."
O Arcebispo Ronald Hicks, nomeado por Leão XIV para liderar a Arquidiocese Católica de Nova York, afirmou que seus cinco anos em El Salvador aguçaram sua sensibilidade para com os que chegam aos EUA, proporcionando-lhe uma "vivência direta de como é estar do outro lado". Hicks enfatizou que o Papa Leão XIV sempre lembra que "os Estados Unidos sempre foram um país de imigrantes. Todos vêm de algum lugar, em momentos diferentes", e que sua visita levanta reflexões cruciais sobre "como acolhemos o próximo" e "a percepção de nossa irmandade", em vez de categorizá-los prontamente como um entrave. Desde sua eleição, o Papa tem designado diversos prelados que chegaram aos EUA como migrantes, incluindo um que foi introduzido sub-repticiamente aos 18 anos.

Tanto Cupich quanto Hicks defenderam a importância de um arcabouço legal sólido para gerir a imigração, enquanto os bispos dos EUA têm se posicionado com maior veemência sobre questões migratórias, divulgando um manifesto coletivo no final do ano passado.
A Tensão Sobre a Guerra no Irã
Os atritos entre o governo e a Santa Sé vieram à tona quando o ex-presidente Donald Trump desferiu uma série de críticas ao Papa, após a postura contrária do pontífice ao conflito no Irã. O Cardeal Cupich expressou um profundo pesar diante dos ataques, descrevendo-os como um "fato inédito" e sugerindo que os "parâmetros de conduta que deveríamos almejar" dos líderes dos EUA "estavam realmente ausentes naquele contexto". Cupich também afirmou que o conflito iraniano não se enquadrava na premissa de guerra justa, observando que "todos os preceitos da doutrina da Guerra Justa foram desrespeitados naquela ação".
Em abril, o vice-presidente JD Vance havia sugerido que o Papa deveria agir com "cautela" ao abordar questões teológicas e considerar a premissa da "Guerra Justa" ao falar sobre o conflito no Irã. O Cardeal Cupich defende uma interlocução constante entre a Igreja Católica e Vance para reforçar o entendimento de que "a aplicação da teoria da Guerra Justa é inadequada neste cenário" e que ela não pode ser interpretada como uma "validação" para o conflito. Desenvolvida ao longo de séculos e tendo Santo Agostinho de Hipona, patrono espiritual da ordem religiosa à qual Leão XIV pertence, como um de seus principais formuladores, a doutrina da Guerra Justa é frequentemente utilizada como fundamentação ética e moral para conflitos armados. Em um documento pontifício recente, o Papa declarou que a teoria da guerra justa não pode justificar conflitos modernos.



